Estava a fazer uma pesquisa sobre jardins-de-infância quando me deparei com alguns vídeos daquelas festinhas de final de ano, e me lembrei daquela a que há um ano assisti.
Foi uma daquelas festas típicas, em que os pequeninos fazem uns “teatrinhos”, umas coreografias, umas secções decoradas de ginástica, cantam, enfim, trinta por uma linha.
Adoro crianças e, como tal, sou bastante atenta e crítica em relação a tudo que esteja ligado a elas.
Recordei algumas passagens de observadores entretidos na plateia, que gravei na memória, do género: “ - Ai elas trabalham mesmo bem com as crianças!” “– Estas educadoras são muito competentes.” “– O trabalhão que elas tiveram a organizar isto tudo…”. Isto, enquanto se riam de uma ou outra criança mais desesperada lá para o meio.
Meus senhores, festinhas de final de ano deste género são um atentado às vossas crianças. Não sou nenhuma especialista, e, portanto, tudo o que escrevo é apenas opinião de uma espectadora atenta.
As crianças são obrigadas a se exporem e a levarem um empurrão ou outro, porque às tantas a festinha começou às 20h30 sabe-se lá porquê, e a pequenada já está a morrer de sono.
Realmente o trabalho destas educadoras é genial. Por cerca de um mês, trabalham com as crianças na “festinha”, obrigando-as a pressões, stresses, decorar passos, músicas, enquanto podiam estar a brincar e a desenvolverem muitas capacidades com meia dúzia de legos, ou uma folha de papel.
As educadoras trabalhariam bem, se no final do ano expusessem, por exemplo, todos os trabalhos que as crianças fizeram ao longo de todo o ano. “Uma exposição como gente grande”,”A semana das exposições”, em que não há horário específico para que qualquer pessoa aprecie os trabalhos da pequenada! De 1 aos 5 anos, não importa se fizeram origamis, e o João (cinco anos) fez o barco direitinho, enquanto do papel da Beatriz (2 anos) sobrou uma bola amarrotada. Não importa. É trabalho deles e assim, não temos de expor as crianças a figuras ridículas, das quais, muitas nem um suporte familiar têm para assistir à festinha, ou então, são crianças mais tímidas e reservadas, que elas (as tais educadoras competentes), obrigam, literalmente, a estar presente. Porquê? Porque sim! Porque elas querem. Porque é bonito e fica bem. Aliás, dá até mesmo para as pessoas pensarem: “- Vês? Até trouxeram aquele miúdo que foge sempre de toda a gente e anda o dia todo enfiado lá nos cantos da sala. Elas devem andar a trabalhar esses traumas dele.” Trouxeram pois, trouxeram-no para um pesadelo, e os traumas que elas trabalham são apenas os que lhe acrescentam. E depois, acho interessante a hierarquia do palco. As crianças mais desenrascadas na frente, e o resto lá atrás. Atrás, deviam ficar as educadoras. E não atrás das crianças, mas atrás das cortinas. As crianças não têm de ser as marionetas mal usadas de educadoras que só querem fama e bom proveito.
Ia escrever “acho” mas tenho a certeza: não quero ser dessas “educadoras competentes”. O palco dos meus educandos será o tapete da sala, e o meu lugar, sempre, sempre atrás das cortinas.
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