quarta-feira, 31 de março de 2010

terça-feira, 30 de março de 2010

"Então, o que fizeste hoje no Jardim?" Esta é a pergunta mais frequente e a menos correcta. Melhor seria: "Então, o que APRENDESTE hoje no Jardim?". A verdade é que na maior parte dos casos, e infelizmente, as crianças só sabem responder à primeira.
Ainda em relação à postagem anterior lembrei-me: já repararam que é raro o Jardim onde as crianças APRENDEM? Normalmente memorizam histórias, lenga-lengas, canções, coreografias, "peças de teatro", e o resto?
Normalmente, a manhã é dedicada ao conto. A educadora senta-se no chão juntamente com as crianças, pega num livro e lê a história monotonamente, enquanto vai virando o livro para as crianças observarem as ilustrações. Lá se vai a manhã toda porque entretanto a soma dos ralhetes dá metade da manhã, pois o João tava a mordiscar a Maria, o Pedro, o Miguel e a Francisca interromperam para ir à casa-de-banho, a Beatriz estava mais interessada na pulseira da Joana, etc etc. Não é de admirar. A professora devia estar a um nível mais alto do que as crianças (talvez sentada numa cadeira ou até mesmo em pé, podendo assim reagir fisicamente aquilo que é contado) para que todas a vissem e ouvissem melhor. O livro poderia ser digitalizado e mostrado, ao mesmo tempo que ouvem a história, através de um projector ou mesmo no ecrã de um qualquer computador. O facto de se interromper a história para as crianças olharem para o livro torna-se monótono e elas arranjam rapidamente maneira de escaparem da situação. Pior do que tudo isto, é a história apenas ser contada. Ouvem a histórinha, passam a manhã nisto, é tudo muito bonito e vamos lá almoçar. Se tudo fosse realizado com mais consciência, haveria tempo para as crianças ouvirem a história e ainda reflectir e brincar com esta. A educadora poderia pedir que as crianças recontassem a história à sua maneira, pedir as suas opiniões acerca da mesma, se há lições na história, se conseguem identificar "os maus e os bons". Podia inventar um novo final com as crianças, pegando, por exemplo, num novelo de lã que cada criança vai desenrolando e atirando ao colega seguinte para este continuar o raciocínio, fazendo assim uma teia de ideias, podia pedir às crianças que fizessem um desenho acerca da história (elas adoram), e, muito importante, dar logo de início ênfase ao título e autor do livro (só para as crianças notarem que isso é importante, e torná-las mais atentas e curiosas para esses pormenores).
Mas nada disto acontece. Os miúdos habituam-se desde cedo a ser passivos e a reter apenas informação, sem que a explorem ou apliquem. Crescem, vão para o 1º Ciclo e não participam, não estão atentos, não sabem aplicar dados. Crescem ainda mais, vão para o 2º Ciclo, 3º Ciclo, Faculdade e, em vez de se preocuparem em assimiliar e compreender os conteúdos, memorizam-nos na véspera dos testes/exames, e de quem é a culpa? Pois é, da fase Pré-escolar onde se habituaram a reter informação sem lhe prestar a mínima atenção. Notem como pequenos erros, somados, trazem graves prejuízos para o resto da vida das pessoas.
Ser educadora é, na minha opinião, das profissões mais bonitas e das que mais acarretam responsabilidades. É preciso gostar, e gostar muito, para nos empenharmos verdadeiramente naquilo que fazemos e darmos atenção a cada particularidade de cada criança. Temos o futuro nas mãos!

quinta-feira, 25 de março de 2010


Hoje, a caminho de casa, a Maria João (sobrinha, 5 anos) exibia orgulhosamente algo que aprendeu no Jardim. “-Tia, olha: 5+5 são 10; 2+2 são 4; e 4+4 são 8”. Nisto, pergunto-lhe: “- E qual é o resultado de 8+8? E ela: “ – Oh, esse não sei!” “- Não sabes? Então como é que sabes que 4+4 são 8? Porque é que são 8?” “- PORQUE SIM!” Bem…fiquei furiosa com aquele método de “aprendizagem”. Ou talvez um tanto ou quanto frustrada. Percebi que a Maria não estava a demonstrar capacidade de cálculo mental ou mesmo de perceber o algoritmo, mas sim, a exibir a sua capacidade (e que eu aprecio muito) de memorização. Agora digam-me: Qual é a piada de uma educadora ensinar às crianças a decorar o resultado de adições? Qual é a lógica? Qual é a utilidade? Se a educadora transmite às crianças que 2+2=4 e ficamos por aqui, é e pronto, as crianças podem bem afirmar que 3+3 são 7, porque sim. Muitas educadoras preocupam-se tanto com o que as crianças passam para o exterior que se focam em demasia em aspectos superficiais e, muitas vezes, prejudiciais para as crianças, como este caso, dando-lhes ideia de que a matemática é algo fechado e inflexível. É óbvio que os pais adoram ver que a criança já sabe escrever o seu nome, alguns números, já sabe “somar”, mas e o resto? Como é que as crianças aprendem essas coisas? Que lógica tiram elas do que fazem? O que compreendem? Em que sentido isso lhes é favorável? Enfim, tenho uma série de dúvidas. O conselho que tenho para vos deixar é este: é mais importante explorar os sentidos do que ocupá-los!

Observação. Perguntem a uma criança que saiba aquela cantilena “sete e sete são catorze, com mais sete vinte e um” (normalmente, as crianças aprendem-na no Jardim, e logo no 1º ano, as professoras fazem uso disso), qual é o resultado de 14+7. A maior parte das crianças não responderá imediatamente, nem tão pouco associam à cantilena. E sabem porquê? Porque, como disse, as professoras FAZEM USO disso mas não se lembram de EXPLICAR, EXPLORAR, transformando essa adição num acto simplesmente mecânico.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Criancinhas

"A criancinha quer Playstation. A gente dá.
A criancinha quer estrangular o gato. A gente deixa.
A criancinha berra porque não quer comer a sopa. A gente elimina-a da ementa e acaba tudo em festim de chocolate.
A criancinha quer bife e batatas fritas. Hambúrgueres muitos. Pizzas, umas tantas. Coca-Colas, às litradas. A gente olha para o lado e ela incha.
A criancinha quer camisola adidas e ténis nike. A gente dá porque a criancinha tem tanto direito como os colegas da escola e é perigoso ser diferente.
A criancinha quer ficar a ver televisão até tarde. A gente senta-a ao nosso lado no sofá e passa-lhe o comando.
A criancinha desata num berreiro no restaurante. A gente faz de conta e o berreiro continua.

Entretanto, a criancinha cresce. Faz-se projecto de homem ou mulher.
Desperta.
É então que a criancinha, já mais crescida, começa a pedir mesada, semanada, diária. E gasta metade do orçamento familiar em saídas, roupa da moda, jantares e bares.

A criancinha já estuda. Às vezes passa de ano, outras nem por isso. Mas não se pode pressioná-la porque ela já tem uma vida stressante, de convívio em convívio e de noitada em noitada.

A criancinha cresce a ver Morangos com Açúcar, cheia de pinta e tal, e torna-se mais exigente com os papás. Agora, já não lhe basta que eles estejam por perto. Convém que se comecem a chegar à frente na mota, no popó e numas férias à maneira.

A DEVIDA COMÉDIA

A criancinha, entregue aos seus desejos e sem referências, inicia o processo de independência meramente informal. A rebeldia é de trazer por casa. Responde torto aos papás, põe a avó em sentido, suja e não lava, come e não limpa, desarruma e não arruma, as tarefas domésticas são «uma seca».

Um dia, na escola, o professor dá-lhe um berro, tenta em cinco minutos pôr nos eixos a criancinha que os papás abandonaram à sua sorte, mimo e umbiguismo. A criancinha, já crescidinha, fica traumatizada. Sente-se vítima de violência verbal e etc e tal.

Em casa, faz queixinhas, lamenta-se, chora. Os papás, arrepiados com a violência sobre as criancinhas de que a televisão fala e na dúvida entre a conta de um eventual psiquiatra e o derreter do ordenado em folias de hipermercado, correm para a escola e espetam duas bofetadas bem dadas no professor «que não tem nada que se armar em paizinho, pois quem sabe do meu filho sou eu».

A criancinha cresce. Cresce e cresce. Aos 30 anos, ainda será criancinha, continuará a viver na casa dos papás, a levar a gorda fatia do salário deles. Provavelmente, não terá um emprego. «Mas ao menos não anda para aí a fazer porcarias».
Não é este um fiel retrato da realidade dos bairros sociais, das escolas em zonas problemáticas, das famílias no fio da navalha?

Pois não, bem sei. Estou apenas a antecipar-me. Um dia destes, vão ser os paizinhos a ir parar ao hospital com um pontapé e um murro das criancinhas no olho esquerdo. E então teremos muitos congressos e debates para nos entretermos."

quinta-feira, 11 de março de 2010


A Mafalda vai fazer 3 anos e sempre foi uma criança muito inteligente. Para além da sua boa dicção, utiliza palavras complicadas que me espantam, de cada vez que ela se sai com alguma. É muito activa, adora descobrir. Uma das coisas que mais me fascina nela é a sua capacidade de reter informação. A Mafalda aprende tudo.
Acontece que há dias o pai da Mafalda me disse que ela não consegue aprender as cores. “Ela tem um livro com as cores e diz que quer aprender, mas não consegue. Troca-as todas!” Fiquei confusa. Pensei: bem, talvez começando a associá-las a objectos, ela consiga. (Mesmo assim, achei muito estranho que ela tivesse dificuldade nas cores). E aproveitei o facto de ela ter nesse dia um gancho e umas collants cor-de-rosa para lhe ir mencionando isso à medida que íamos brincando. “Anda cá arranjar o gancho cor-de-rosa que tens no cabelo.”, “Puxa as meias cor-de-rosa para cima que estão a descer.” Hmm, ela associou a cor e identificou, porém, fiquei muito intrigada e pensei no assunto durante algum tempo. Lembrei-me então das manhas. Sim, as manhas! Às vezes nós pensamos que estamos a brincar com a criança e é ela quem está a brincar connosco. Provavelmente, a Mafalda aproveita o período de aprendizagem das cores, como um momento de atenção. O pai, empenhado, ajuda-a e apoia-a na aprendizagem, e ela, claro, adora toda a atenção. Como tudo é tão fácil para ela, poderá decidir querer inverter um pouco as coisas e “brincar com o pai”. Então, propositadamente, erra nas cores. Podendo repetir vezes sem conta os erros e divertir-se com as ínfimas possibilidades de erro e, também, com o tempo dispendido no “jogo”.
Dois dias depois expus a minha ideia ao pai da Mafalda e propus que, ao ensinar-lhe as cores, errasse. Se ela estava realmente a fingir na dificuldade em aprender as cores, diria com certeza acerca de um objecto azul: “Nãããão papá, não é nada verde. É AZUL!”. O pai da Mafalda lembra-se de uma coisa importante: esteve a fazer figuras em barro com ela, e na parte da pintura das figuras, ele perguntou-lhe de que cor ia pintar o cesto da fruta e ela respondeu “verde”. Ele ausentou-se um pouco e as tintas ficaram na mesa, aleatoriamente, ao dispor da Mafalda. Quando voltou, ela estava a pintar o cesto (adivinhem de que cor??) de verde!!

A Mafalda fica tão aborrecida com a perfeição limitada, que tentou tornar o “jogo” mais interessante. Não só teve de saber correctamente as cores, como ainda seleccionar uma dúzia de relações erradas. Além disto, teve de “encenar” as respostas emocionais e faciais, fingindo que estava segura das suas respostas.

Riam-se. Porque eu também me ri. As crianças são muito inteligentes. É por estas e por outras que eu adoro aprender com elas!

Educadora de infância??? Ahaha. Qual quê? Até agora, só a infância me tem educado a mim.

terça-feira, 9 de março de 2010

“Estragam-no/a com mimos!!!”
Odeio esta expressão. Não sei se falta aqui um bom entendimento acerca do que é o mimo, ou então se há um (grande) problema de valores.
As crianças são muito sensíveis a tudo a que se passa à sua volta. São autênticas esponjinhas que absorvem toda a informação, já para não falar de que são o espelho daquilo que as rodeia. Os pequeninos constroem a sua identidade com base naquilo que existe ao seu redor, naquilo que lhes transmitem, e naquilo que os incentivam a ser.
Imaginem uma criança que tem tudo o que quer. Que cresce no meio dos berros dos pais, não recebe qualquer tipo de atenção, é castigado mas nunca compensado. Nem precisamos ter a criança em pele e osso à nossa frente. É mais do que provável que seja uma criança irritante, histérica, ansiosa, teimosa e frustrada. Esta alminha não está a ser estragada com mimos, está a ser estragada pela forma sufocante como vive. De que lhe valem os brinquedos todos que ganha ou as roupas da marca não-sei-quê? Isso não é mimar, não confundam. Isso é estragar, sim! Não misturem o “estragar” com o “mimar”.
O mimo é demonstração de carinho, é amar, prestar atenção, acarinhar, afeiçoar. Quem não gosta? Quem não precisa? O Mimo faz com que as crianças se sintam seguras, ensina-as a amar, sensibiliza-as para a demonstração de afectos, acalma-as. Um beijo de bom dia, uma história para adormecer, um pedido de desculpa, uma partilha, um acordo, uma surpresa, uma palavra, um gesto. O mimo pode traduzir-se nas mais variadas acções e todas elas edificam. Não há maneira de estragar uma criança com mimos. Mimar não é “não educar”. Mimar não é dar roupas de marca. Mimar não é fazer as vontades todas. Mimar não é ceder a todos os caprichos da criança. Mimar é demonstrar. É transmitir à criança que, mais importante do que as 5 vogais, a tabuada ou o canal Panda, é o amor. É mostrarmos uns aos outros o quanto nos amamos. É cuidar. São gestos que tornam as nossas crianças em seres mais sensíveis, meigos, afectuosos, calmos.
Nunca mais digam que o mimo estraga. O que falta na nossa sociedade é mimo. MUIIIIITO MIMO! =)