
Se a sua criança se tornou muito pouco sincera, esconde factos e mente compulsivamente, onde acha que ela aprendeu isso? Sim, com você.
Temos o hábito ridículo de, desde cedo, impedirmos as crianças de se expressarem com sinceridade, coisa que tão bem sabem fazer.
Vejamos:
Inês: 5 anos
A Inês diz à vizinha de 50 anos que ela tem um bigode igual ao do papá.
O que você faz?
Dá um abanão desesperado no braço da miúda, arregala os olhos numa expressão monstruosa e, com a sua face a menos de 10 cm de distância da cara surpreendida da Inês, diz-lhe num tom assustador que: “ISSO NÃO SE DIZ!”.
Tiago: 3 anos
O Tiago vai à festa do Duarte, prova um rissol que, por acaso, lhe soube mal, e decide confessar à mãe do Duarte que os rissóis da mamã são melhores.
O que você faz?
Primeiro desculpa-se gagamente com uma “frase fácil”: “- Ultimamente, não sei o que se passa, anda muito enjoado com a comida. Até porque já provei os rissóis e estão muito bons. Aliás, onde comprou?” Diz isto numa questão de segundos porque está pronta para vomitar um “ISSO NÃO SE DIZ!” para cima do Tiago, e claro, acompanhado pela expressão aterradora de quem atinge um estado de vergonha e fúria capaz de espremer uma pedra.
E, perante este circo, a Inês e o Tiago só ficam a perceber uma coisa: “Há coisas que não se dizem”. E se a mamã ou o papá escolhem essas coisas, eles também podem escolher. E depois admire-se que a Inês não admita que, realmente, foi ela quem partiu o jarrão da sala com a barbie que deveria ter acertado no cão, ou que o Tiago minta dizendo que foi o João quem mordiscou a Lara. Sim, porque, depois das “coisas que não se dizem”, eles aprendem que podem dizer outras coisas para compensar as que “não se dizem”.
E lá vem a vossa pergunta… Então, como os educamos se não podemos chamar a sua atenção?
Resposta: Pode. Pode e deve “CHAMAR A SUA ATENÇÃO”. Nos exemplos acima, não há chamadas de atenção. Há repreensões sem explicação. Distinga a má educação da sinceridade inocente.
E lá vêm os meus exemplos:
Por exemplo, na história da Inês, a mãe/o pai deveria pedir desculpa à vizinha pela observação da filha, não entrando em grandes discursos (óbvio), esquecendo o assunto.
Mais tarde, deveria aproveitar para ler uma história ou ver um episódio de um desenho animado na companhia da Inês, que vincasse o facto de que corremos o risco de magoar as pessoas com aquilo que lhes dizemos ou fazemos (o Ruca tem episódios fantásticos, aconselho). Se não dispor de nada, invente uma história que a/o ajude, enquanto finge que lhe lê um livro. Isto aplica-se também ao exemplo do Tiago.
Para além de as crianças se identificarem mais com estas estratégias do que com os seus sermões, normalmente ficam com uma perspectiva mais ampla e clara do problema.
Ainda em relação ao Tiago, a sua mãe/o seu pai, poderia, já em casa, acompanha-lo na realização de um desenho de uma casa (por exemplo), e, no final, mostrar-lhe que os seus desenhos, para além de terem desenhado, os dois, uma casa, os desenhos são muito diferentes, mas estão os dois muito bonitos. Ou construam, cada um, um barco com legos e realce com ele as diferenças. Depois, sem repreensões, lembre-o: Lembras-te de hoje, na festa do Duarte, teres dito à mãe dele que os meus rissóis são melhores? A verdade é que tal como no desenho que fizemos/barco que construímos, também a comida as pessoas fazem de modo diferente. Nenhuma pessoa faz uma coisa exactamente igual à outra pessoa, e não quer dizer que não esteja igualmente bem, apesar de, por vezes, podermos ter preferência. Os rissóis da mamã não são melhores, são apenas diferentes do que os da mãe do Duarte, mas não são melhores, tu é que tens preferência, não é? Se calhar o Duarte prefere os da mãe dele também.” Deixe a criança expressar-se e verá que o diálogo com exemplos práticos vale muito a pena.
Agora lembre-se: “ISSO NÃO SE DIZ!” não ensina nada e estraga tudo.

